Rewind

clique direito do rato para abrir noutra página
Google
 
Web REWIND

sábado, Março 11, 2006

05-02-1985


As tenazes dos algozes aproximam-se pelo obscuro túnel que conduz à sua caverna. ao seu espaço. Estava ele tranquilo e feliz, quando tudo sucedeu. Desprevenido (como se a prevenção lhe fosse adiantar alguma coisa!...) e assustado busca, debalde a sua fuga. Percorre, tentando não perder aquilo para que fora tão maravilhosamente dotado, a vida, cada cantinho da sua caverna. Ele é pequenino e não tem por onde sair, fugir, viver, é desesperado mas não desiste. A sua luta, o seu desespero, são curtos. Chega a derradeira instância da sua vida e... Ah! esmagado, arrastado e por fim, ao relento, ao frio, já estraçalhado, sem vida, atirado para um canto, não se sabe onde... já não interessa...

sábado, Fevereiro 25, 2006

01-02-1985


Sinto-me feliz por ter um menino (ou uma menina?) dentro de mim. Ainda não é nada disto, mas podia vir a ser se não fossem determinadas contingências, o que me entristece muito, pois gostaria de prolongar a vida deste bichinho que trago no meu ventre. Hei-de "morrer" de remorsos? Será que ele já sabe do seu triste destino? Não, acho que não. Ele está aqui sossegadinho, quentinho, confortável, e não sabe de nada... Nem sabe que poderia vir a ser um ser, humano, veja-se isto...
E eu, sem que ele se possa de modo algum opôr, não vou deixar. Vou deixá-lo ao frio, ao relento... e ele vai morrer, e eu vou deixar, não vou salvá-lo; vou deixar morrer como se de nada se tratasse. Como se não tivesse sido eu a fazê-lo, a provocá-lo, aquando de uma certa reunião de amor. (foi no dia 31-12-1984)

sábado, Fevereiro 18, 2006

06-10-1985

Encontro-me num estado que não creio ter vivido antes. É muito bom, mas ao mesmo tempo faz-me querer chorar, chorar mas não sei se de alegria.
É um calor intenso e um friinho desagradável. Confortável, como a melancolia de uma manhã de chuva triste.
O frio faz-me respirar ofegante, com medo. O calor enleia-me, contente.
Ando e sigo em frente induzida, por que forças não sei. É como se tentasse alcançar algo, tocar uma nascentede água límpida e luminosa, com frevor, e nunca conseguisse chegar. Mas caminho sempre. O caminho é ladeado de lindas flores coloridas. Que por serem tão belas não quero pisar. A cor cega-me e maravilha-me, o perfume que exalam confunde-me, estontea-me docemente. Prosseguindo, ladeada de beleza intensa, piso, descalça, silvas rasteiras que atapetam o caminho e me ensanguentam os pés e me fazem chorar de dor. Mas estou feliz...
Rastejo, rastejo, tentando, sôfrega, beber dessa água fresca. Os meus lábios, rubros e inchados de desejo, tacteiam em busca dessa frescura.
Ao dançarmos sinto-me feliz, mas não posso tocar-te (que desespero). Mas tu excedes-te vendo-me assim, iluminada, bailando à tua frente. Nua e branca e estrelada.
Queres beijar o meu ventre. Fujo-te desvairada correndo para ti. Rimo-nos em gargalhadas estridentes.
Tudo é vermelho e laranja e reluzente. Como se vagueássemos num espaço musicado por entre estrelas e sóis.

06-05-1985

Vi-te...
Foi ver um sol,
Um raio de luz resplandescente.
Chovia, mas tu, brilhavas
,
Ali...
Encantaste-me o olhar.
Sem me ofuscar.
Deliciosamente.
És tão belo!...
Junto de ti, liberto-me,
vagueio...
Como naqueles dias
De mar violento, livre,
Regozijo-me em ti.
Sinto-me bela, amor...
A Vénus do Milo...
Ah! Ela inveja-me
Ela não se sente tão bela...
Como eu me sinto, junto de ti...
Donde vem a luz
Desses teus encantos?
Que leveza...
O teu olhar...
Que duas pedras preciosas,
Cheias de beleza;
Beleza para eu adorar...
Sem querer, devagarzinho,
Tacteio-te, levemente
Com imenso carinho...
Como te quero... com furor!
És tu, uma chama, ardente.
Um sonho... Que calor!
As minhasd mãos, até clarearam...
Níveas, doces de te tocar...
Que magia, o vendaval,
A força de tanto te amar!...

05-04-1985

Mármores róseos.
Esta escadaria colossal
Desço-a em véus, branco, envolta,
Corro por ti.
Por ti choro, por ti solto,
Ela, eu, gargalhadas nervosas,
Sopros de amor.
Beijo-te. Beija-me!...
Sol doirado, minha fonte.
Tudo é nada perto de ti, amor...
Vem, sê meu, tem-me, abraça-me.
Enrodilha-te em mim, eu em ti.
Que sonho... que tortura!
Louca, sou eu, ela, a louca.
Esbracejo, gemo... quero-te.
Ouço os teus passos (és tu?)
Bate, bate, o meu coração...

03-04-1985

Vem para junto de mim.

Espero-te na clareira, sabes?
Aquela, florida, diáfana
...
Lembras-te?
Estou prostrada, ao fundo,
Naquele canto, sabes?
Hás-de ver um vulto.
Roxo, de Saudade.
Vem depressa ou os
Lírios cobrir-me-ão,
O altar que me eleva,
O mármore róseo que
Me sustém, ruirá...
A deusa cobrir-me-à
Com o seu manto
De perfumados odores...
No seu encanto me envoltará,
Voarei, enfim...
Amor...

sábado, Fevereiro 11, 2006

05-02-1985

Longe, muito longe esteve o teu aconchego, o teu conforto. O teu amor, perto, mas tão longe. As tuas mãos plácidas, leves e envolventes... Oh! Como te amo loucamente (como jamais amarei alguém-?-). Quero de ti um berro de Amor por mim, uma chama ardente, constante. Suo de amor por ti... vem... limpa o suor que por mim abaixo escorre. Ama-me...
Sabes-me triste, seca de amor (ou não sabes?)... beija-me. Diz-me que me amas e bendiz a dor com que me pariste, essa dor maravilhosa do amor, de felicidade!...

26-12-1984


Ânsia... Que tenebrosidade, que largueza, que profundidade. Tão grande que não lhe chego... mas sinto-a...
Ânsia é uma vontade..., de quê? É um querer, é um querer de nada e tudo querer... Ânsia, que brota, sem cessar, de uma nascente convulsa; de uma fonte luminosa em esplendor; que vem, que vem vindo, que vai estando... Oh, que ansiedade!
Correr, correr muito e muito depressa, alcançar tudo e tudo abraçar, com amor... mas eu não sei correr assim, pelo menos tão depressa. Oh, sonhar. Sonhar! Sonhar as alegrias e as tristezas ou até, quem sabe, as ansiedades, que coisa maravilhosa, que redor fascinante e aterrador, que corrupio...
Tanta, tantas coisas. Movimentos: correrias, agitação, ventania, pensamento; Pausas: , é impossível parar..., andar, correr, continuar, sempre, ainda... que redemoinhar!! Tanta, tantas coisas!!
Largos, grandes, compridos, senhores, reis, que dinastia a nossa... Não sei, ninguém sabe ou saberá o que se passou e o que se passará. Todos nós... que desgraça... Nós? Quem somos? Sabes?
Nós? Quem somos? Sabes? Eu sei... fomos o que somos e o que seremos... é tão fácil... tão redutível...
Nós? Somos aqueles que passamos...
NÓS SOMOS AQUELES QUE PASSAM.
Medo. Que pequena grande palavra, que imensidão, que medo!
Silêncio, o que é? Não existe! Não pode, não deixam... o Silêncio é o desgraçado, o preso condenado perpetuamente... coitado...
NÃO! Silêncio... não existe, não é condenado nem preso... NÃO!
O silêncio existe em nós escondido, nós sabemo-lo, nós temo-lo, ele está... comigo... sozinhos, desamparados!
[Pintura: Os Cipestres, 1889, Vincent van Gogh]

11-12-1984


Estou farta da minha pessoa, sou ninguém, não vivo, vou vivendo, andando! Não sei caminhar a direito, a minha estrada é larga e sinuosa. A minha vida é uma mentira, uma mentira muito grande, aliás é um churrilho de mentiras encadeadas, uma verdadeira falsidade... [pintura: Woman with Black Cravat, 1917, Amadeo Modigliani]

sábado, Fevereiro 04, 2006

02-12-1984


O homem é um bicho fedorento, verdadeiramente porco. Sinto-me horrivelmente instigada ao crime pela provocação de um homem. Simplesmente, o sentimento em mim deflagrado é muito forte, é uma repulsa devastadora. Não consigo ser suficientemente clara, não consigo, eu própria, compreender esta descoberta. Coitado do homem, animal frustrado, sôfrego, insaciado, cheio de lacunas. O homem é um animal selvagem, mau, dominador dominado, dominador pela violência e força da estupidez. Uma imagem horrivelmente selvagem marca-me profundamente. Escuso-me a falar dela, porque é impossível fazê-lo sem parcialidade, porque, embora a imagem seja perfeitamente nítida é impossível descrevê-la por simples palavras. Realidade triste é a de que, afinal, eu sou a principal culpada deste sentimento em mim, acho que o provoco, pela não distinção dele em relação ao sentimento que me causa, uma vez que crio as condições propícias para o causar. Não vale a pena escrever isto, basta-me senti-lo, pois de outro modo acabo por o deturpar. As pessoas, quem/que são as pessoas? Julgo serem algum ramo descendente da espécie humana, hoje em vias de extinção (acho que ainda subsiste algures, num lugarejo do mundo..., ou será mera suposição?). Estou rodeada de pessoas, animas ferozes que me excitam estupidamente pela provocação e me causam sentimentos de ansiedade, incerteza, de total desespero. O verdadeiro caminho a seguir é o total isolamento, o não contacto com estas pessoas. Oh, que espécie tão degradante (e degradável) que domina tudo quanto é belo, oprimindo, ordenando, misturando, perseguindo, obscurando. Não há reverso da medalha, o lado mau, virado para mim, oculta o outro... chegámos a uma situação irreversível, a estrada fecha-se atrás de cada passo. Resta-lhes afundarem-se mais e mais... Eles caem por um poço sem fundo, muito escuro. A luz que vêem é o sopro da vida, da esperança que logo morre desesperançada. Então, a luz que vemos não é luminosa, apenas clara. Não, não me considero uma pessoa, o meu ser e a minha dignidade está acima das pessoas. Não quero mais levar vida de pessoa, ela é repudiante. Gosto muito da minha Mãe e esta ideia faz-me sentir uma terrível vontade de chorar, gritar, correr para ela e abraçá-la ternamente, com fervor, com Amor... O meu Pai, gosto muito dele, apesar disso não sei que dizer. Acima de tudo não queria, nem suportaria vê-los sofrer (principalmente sendo eu a causa desse sofrimento). A minha vontade de combater todas estas brutalidade é enorme mas, maior ainda é a minha fraqueza e a minha pequenez em relação a elas. As pessoas construíram a sua própria infelicidade, o seu próprio cativeiro. Resta-me a alegria de não ter tomado parte nesta construção.
[Pintura: O Grito, 1893, Edvard Munch]

23-6-1984


[O que eu quis dizer então com isto? Não tenho ideia. Mas resolvi não omitir nenhum dia dos diários]

Pegaram-lhe fogo! Pegaram fogo ao rastilho. Vai queimando lentamente até chegar a mim. Eu sei que vai, vou explodir..., porque eu possuo-a. Possuo a pólvora em bruto. Ao explodir deixarei sementes... e vós... pobres de vós!! Vós morrereis também, cegos pela minha semente que vos destruirá..., assim como me destruíu.
Poucos restarão. Esses construirão um mundo belo, esplendoroso... um mundo liberto da semente... e de todos vós... e de mim também.
Neste meu último momento, desejo-vos apenas: morram em paz!
Não!! Não é possível, chove, chove muito agora... não mais será possível salvar o mundo.
Esta chuva não molha..., magoa... e eu, eu choro... Ela também errou, esta chuva vinha para fazer viver a minha semente e fazê-la singrar até estar apta a destruir. Mas não, ela apagou o rastilho.
Quem chora agora é ela, a chuva... que não molha, mas magoa... e eu choro com ela.
[pintura: Visão após o sermão (Jacob lutando com o Anjo) c. 1888 por Paul Gauguin]

21-06-1984


Esbracejava no alto dominada pelo vento, tudo se regia a partir dela, da sua fúria. Tudo se levanta na sua exaltação. O véu, suavemente pousado sobre ela, esvoaçava, envolvendo-a, abraçando-a, confundindo-a... E ela gritava ao vento e dançava, dançava gritando... Ardendo em amor..."
[pintura: Angel Standing in the Storm, c.1840 by Joseph Mallord and William Turner ]

Explicação

Decido-me hoje, então, começar a publicar as páginas desses diários há muito esquecidos numa gaveta. Estas primeira entradas datam de quando tinha 17 anos, altura em que Gomes Leal, Florbela Espanca e Mário de Sá Carneiro povoavam o meu imaginário.
Tenho diários anteriores que não encontro, mas que sei que se encontram enterrados algures na garagem. Por isso começo a partir da data do post seguinte.
Espero que gostem de ler e aguardo os vosso comentários. São fragmentos da vida de uma rapariga, por vezes confusa em luta consigo mesma no processo de crescimento.

quinta-feira, Fevereiro 02, 2006

Há dias assim...


É! Há dias assim. Dias em que por mais que olhemos para todos os lados os nossos olhos só vêem para dentro.
Penso que este ano vou fazer uma festa de anos. Já desde os 18 que não faço uma. Pensei em convidar os meus amigos, todos aqueles em quem penso, uns mais ocasionalmente do que outros, e fazer uma festa. Os meus pais desta vez também viriam. O meu pai até podia fazer o bolo.
Mas depois ponho-me a pensar que não aguento tanta intimidade e refreio-me nos pensamentos amedrontada...
Não! Devo ter coragem para me enfrentar.
Penso então, que para além da presença dos meus pais e do opíparo bolo, também vou querer fazer uma projecção de fotografias e pequenos filmes documentais da minha vida. Quero juntar aqueles de quem gosto e pensar nos que perdi. Olhar com todos para a minha vida, com todos os que dela fazem parte. Acho que podia arranjar um espaço amplo (podia ser a garagem do Pedro), para fazer esta projecção nas paredes. Ainda não sei, vou pensar melhor nisto.
Se me ponho a pensar na minha vida, no caminho que percorri até hoje, às vésperas de completar 34 anos, faço-me tantas perguntas que, mesmo de olhos abertos, deixo de ver e fico perdida e tão distraída que tropeço em tudo.
Um dia destes, encontrei todos os meus diários de há uns anos valentes atrás enfiados num saco no fundo de uma gaveta . Ao reler umas passagens aqui e acolá vejo claramente o quão desencontrada comigo mesma sempre andei e percebo uma vez mais o quão difícil é esta viagem de refresso a mim mesma.
Foi com estas coisas todas na cabeça que me decidi a criar este blog onde vou transcrever letra a letra todas as páginas desses diários.